sábado, 13 de fevereiro de 2010


Caio, amado amigo


Não preciso falar do escritor tocado de genialidade, justamente celebrado nestes dez anos de sua morte. Falo do amado amigo, quase um irmão mais novo. Era estranha aquela amizade nossa... ou deverei dizer "é", no presente?

Caio Fernando Abreu nasceu um dia depois de mim, exatamente dez anos mais tarde. Eu era casada com um ilustre professor universitário e pesquisador, tranqüila mãe de três filhos; Caio, grande alma inquieta, era um andarilho misto de príncipe e alternativo. Ouvi falar dele muitas vezes antes de o conhecer. Guilhermino Cesar, crítico severo e erudito, disse-me dele: "Escritor não nasce pronto, mas Caio Fernando é uma exceção : aos 20 anos produz um texto em que nada há para melhorar".

Conheci Caio em minha casa, em Porto Alegre, onde me visitou com meu amigo Luciano Alabarse, diretor de teatro, que havia pedido: "Quero levar seu romance Reunião de Família ao palco, e só há uma pessoa capaz de adaptar esse livro: Caio Fernando".

Alguma coisa em pessoas tão incongruentes como Caio e eu transcendeu todas as diferenças, e imediatamente nos tratamos como irmãos. Demos muitas risadas, falamos coisas loucas e profundas e engraçadas, nos comovemos às lágrimas, e naturalmente dei minha autorização. A adaptação de Caio foi magnífica, a peça, montada, foi um sucesso, e a partir dali acho que passei a entender melhor meus personagens, com seus labirintos e dramas existenciais, agora vistos em carne e osso.

Nossa amizade estava decretada. Ficamos em contato. Carta, telefonema ou raro encontro eram simples continuação de um diálogo nunca interrompido. De São Paulo ou Amsterdã, ele me escrevia, com assiduidade ou em longos intervalos. Algumas vezes relatava suas lutas e dificuldades, momentos bons ou pobreza e solidão. Em outras ocasiões, com um pouco daquele seu humor tão peculiar, escrevia: "Ando casto e em paz. Rego minhas plantas, escrevo cartas, faço poemas. Pareço uma recatada velha dama inglesa". De mim, dizia com muita graça: "A Lya, com aqueles cândidos olhos azuis e jeito de mâezona, não tem idéia do que escreve, tanto mistério e dor. Aquilo deve ser tudo psicografado".

Quando ele adoeceu, li seu artigo revelando sua condição, num dos mais admiráveis testemunhos de humanidade e coragem que conheci neste mundo hipócrita. Perto do seu fim, tivemos duas experiências de amizade destinada. Numa delas, jantávamos juntos, num restaurante discreto perto da casa dele. Caio de repente segurou minha mão por algum tempo, depois disse: "Eu sempre vivi como quem quer se matar. Agora que sei que vou morrer... como eu amo a vida!" Nada melodramático, nenhuma autopiedade, apenas dolorida constatação.

Quando ele já estava definitivamente no hospital, quase não recebendo visitas, eu tinha notícias constantes através de amigos ainda mais chegados, como Graça Medeiros. Um dia ele quis me falar, então telefonei. A voz de Caio, inconfundível, era quase a mesma. Falamos duas, três banalidades, e então ele perguntou, direto: "Lya, o que você acha que vai acontecer comigo quando eu me libertar deste corpo?”

Seria indigno dizer algo falsamente consolador a alguém como Caio: nem ele nem nossa amizade nem o momento mereciam isso. Respondi, na maior simplicidade, aquilo em que acredito: "Acho que, livre desse corpo, você vai ser pura intuição, e enxergar num deslumbramento tudo isso que passamos a vida procurando entender, e sobre o que escrevemos tanto". Ele fez um silêncio breve e voltou à carga, num misto de angústia e carinhosa provocação: "E se não for assim?”

Assumi o mesmo tom: "Ah, meu querido, se não for assim, nós dois vamos virar uns diabos bem perversos, e vir fazer toda sorte de malandragem neste mundo!” Sua risada soou no fio do telefone, linda, clara, forte como nos tempos de saúde. Foi nosso último contato: ele morreu dias depois.

Mas está comigo, como outros seres amados que se foram sem realmente partir.


Lya Luft


8 de março, 2006.

sábado, 6 de fevereiro de 2010



"Eu ainda não sei controlar meu ódio mas já sei que meu ódio é um amor irrealizado, meu ódio é uma vida ainda nunca vivida. Pois vivi tudo - menos a vida. E é isso o que não perdôo em mim, e como não suporto não me perdoar, então não perdôo aos outros. A este ponto cheguei: como não consegui a vida, quero matá-la. A minha cólera - que é ela senão reivindicação? - a minha cólera, eu sei, eu tenho que saber neste minuto raro de escolha, a minha cólera é o reverso de meu amor; se eu quiser escolher finalmente me entregar sem orgulho à doçura do mundo, então chamarei minha ira de amor."

Clarice Lispector



domingo, 31 de janeiro de 2010

Nos últimos dias, isto é, ontem, a tristeza começou a ceder terreno a uma espécie de — digamos — abnegação. Durmo, acordo, faço coisas, leio muito. E esse vazio que ninguém dá jeito? Você guarda no bolso, olha o céu, suspira, vai a um cinema, essas coisas. E tudo, e tudo, e tudo.


Caio Fernando Abreu











sábado, 23 de janeiro de 2010

Replay de pessoa, mesmo que doa.

Seco e árido. Embora tenha chovido esses dias, existe alguma coisa pesada, arrastada e com sede. Sede que água não mata. E acorda e ri e finge que vive (e chora). E acorda e se ilude que vive e faz rir e rir (e chora). Repete o que paulatinamente ensinaram para repetir. Dores? Repetidas. Felicidades mentirosas? Repetidas. Repetidas? Repetidas. E fingir surpresa? o que mais se repete.

Ser pessoa cansa. Ou será que achar ser pessoa de verdade é o que realmente cansa? Repetidas de novo. A mentira é exaustiva. E a verdade um fardo pesado de mais para ser suportada por muito tempo. A linha tênue que ninguém segue. Excesso. Sobras. Pessoa? Desequilíbrio.

O entusiasmo das capas de jornais. Passam da validade, mas há novas edições todos os dias. Recompondo-se verdades e mentiras. As palavras que não se afastam muito do tema que se chama vida. Vida? verdadeira-mentirosa.

Sorrisos forjados. Pega-se emprestado a dor do vizinho. Devolve-se? É claro! É proibido doer, só às escuras. Doer sozinho. Compreensão é palavra camuflada com outros sentidos. Se utilizada em seu real significado extrapola-se a linha tênue. Desequilíbrio? Pessoa. Alegrias roubadas e fingidas. Mentirosas. Ah, verdade e mentira, não se afastem muito da vida! Teriam-se outras palavras para encobrir falhas, justificativas, enigmas? Sinônimos, é claro!

Encenando e improvisando. Aproximando-se do que é ser pessoa. Ou afastando-se, muito possível também. E aos que ficam em cima do muro da linha, sentem e aguardem: serão catalogados logo logo. Se é mentira ou verdade? É humano, é pessoa.


cuspidas dia 22 de janeiro/2010, às 23hrs.





Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida.
Mas tenho medo do
que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.


Clarice Lispector

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

quando Deus quer penetrar uma alma, abandona-a antes completamente.

Não fazer nada pode ser ainda a solução.
Iam confundir isto com suicídio mas é mera coincidência. Tem
sentido correr tanto atrás da felicidade, será que basta ser feliz?
Será que ser feliz é um estado de tolerância?



Quase não sei o que sinto, se na verdade sinto. O que não existe
passa a existir ao receber um nome. Eu escrevo para fazer existir e para
existir-me. Desde criança procuro o sopro da palavra que dá vida aos
sussurros. Só não me tornei um verdadeiro escritor porque me perco
demais entre as vidas e minha vida. E porque também preciso pôr ordem
na minha vida, nesse caos de que é feita esta vida grave e inassimilável.
Não consigo me associar à minha vida.

Clarice Lispector

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Cocktail Party

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca…
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos…)
Desce o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as poças
d’água,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!

Mario Quintana



"O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. É? Também , também.

Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida."



Clarice Lispector - A Paixão Segundo G.H.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Pertencer

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.

Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!

Clarice Lispector.



"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustăo.
Doze meses dăo para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovaçăo e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar,
que daqui para diante vai ser diferente."
Carlos Drummond de Andrade.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Dois ou três almoços, uns silêncios.

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: Mas ambos estavam comprometidos.

Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

... Caio F. Abreu ]
# Thatilane

sábado, 5 de dezembro de 2009

"Nessa mesma noite gaguejara uma prece para o Deus e para si mesma: alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a respota seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesma", assim seja.- Uma aprendizagem ou dos Livro dos Prazeres - Clarice Lispector -



Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

domingo, 29 de novembro de 2009

Eu faço a pergunta: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres?


― E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. Eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerando vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos , tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de um vida larga e nós tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempos dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar pronta.


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